terça-feira, 15 de novembro de 2011

City Lights


Por falhar em palhaço.... que beleza de filme!

Charles Chaplin faz graça com o amor, dimensionando a temática do romântico vagabundo que os dias de hoje não permitem existir.

Chaplin faz um morador de rua gentil, atento à vida e aos outros... da humanidade de sua personagem, rebelde ao trabalho e às agressões à pessoa, pessoa simples e boa, contrapõe-se a futilidade do relacionamento do grande burguês, que no meio de sua bebedeira faz do outro um apoio, usa sua amizade para logo a desprezar, vivendo dois mundos, do trabalho e da fuga.

Ri muito; Chaplin se mostra palhaço maestro de um grande circo, em que a diversão se mistura a uma refinada crítica à alta sociedade da época.

E no meio disso, o amor... um romantismo cavalheiro, que enfrenta a paz, a miséria e o trabalho, que desafia o físico e a lei!

Altamente recomendado, não à toa foi eleito um dos 100 filmes! Abraços!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Palhaço


Paulo José e Selton Mello, afinados como nunca e em grandes atuações, narram a história de um palhaço em crise existencial.

O sofrimento de Benjamim, uma crise de identidade que se relaciona com a falta desse documento e com as frustrações de sua profissão, é narrado de maneira singular, ao mesmo tempo em que se apresentam as dificuldades e as belezas da vida e da família circense.

A cuidadosa direção nos brinda a todo instante com pérolas de ironia, palhaçadas sobre a tragicômica penúria do circo, sem ingressar na seara de sentimentalismos vulgares. O figurino das personagens clássicas de todo circo, a filmagem sem pressa e sem reflexões desnecessárias formam o picadeiro para que o palhaço brilhe. Aliás, todos estão muito bem em seus respectivos papeis.

Merece especial destaque a personagem de Larissa Manoela, a menina Guilhermina, que percorre a trama trazendo a inocência do espetáculo à evolução das personagens. Ao longo do filme, passagens divertidas sobre os percalços dos artistas e de suas humanidades desenvolvem um filme despretensioso, engraçado e emocionante. Arte.

Ótimo programa, recomendo!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A Árvore da Vida



Um filme difícil, mas nem tanto. Difícil para quem tente compreendê-lo com olhos racionais.
Sua história, comum, é narrada de modo absolutamente desconexo com parâmetros realistas. Mesmo assim, há uma lógica intuitiva, que conduz o espectador a sentimentos de sua própria história.
Ao menos, comigo foi assim.
Acredito que a resenha sintética divulgada ajuda a dificultar a experiência que o filme tende a nos provocar.
Não é um filme para se entender, mas para se viver. É uma experiência cinematográfica que, no meu caso particular, conduziu-me à lembrança de dois personagens muito próximos de minha história, um deles falecido há pouco; outro, há alguns anos.
Nas duas situações, acompanhei a dor de filhos que perderam seus pais. A transformação pessoal de cada um é única, decerto. Mas o filme nos traz sentimentos tão pungentes sobre a vida e a morte, sobre o que passam cada um dos entes ligados à perda familiar, que nos permite identificar nessa dor fundamentos de um amor familiar profundo. E isso tudo apenas na primeira parte.

Na segunda parte, faz-se uma reflexão sobre aquilo que poderia (ou deveria) ter sido e não foi. E sobre como esse não foi, mesmo assim, produz as personagens, os dramas e o amor real, imperfeito, humano. Todo o filme é marcado por simbolismos até exacerbados, pois nos leva a racionalizações para entendê-los. Mas quando nos deixamos levar pela emoção que cada uma das cenas provoca, seja de solidão, seja de angústia, seja de superação da dor, de compaixão, viajamos por uma via de compreensão sentimental. As cenas finais trazem marcantes a individualidade e a espiritualidade representadas pelas pessoas na praia, num clima de reconforto e reconciliação interna, de paz do sujeito, enfim, traz uma noção de amor e de felicidade.
Ao contrário do que possa parecer, nem o sentimento religioso, nem a fé, e nem mesmo os rigores de uma educação ultrapassada serviram de mote central do filme, para mim. Os temas centrais, para mim, são a vida, a morte, a experiência e o crescimento de um ser humano, através de amores e ódios igualmente humanos.

É difícil comentar sobre o filme. Há algo de transcendental (não é essa a palavra, falo de algo não palpável, mas interno ao espectador) que se procurou - com algum êxito - tocar. Como algo tão pessoal, tão natural, não pode ser traduzido em palavras.

Só sei que vale a pena!

Abraços!

sábado, 10 de setembro de 2011

Dersu Uzala

Acabo de assistir a um filmaço: Dersu Uzala, de Akira Kurosawa, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1976. Retrata a história da amizade do Capitão Arseniev, militar russo, com Dersu Uzala, caçador mongol. Kurosawa retoma o velho tema da amizade entre homem civilizado, associado ao mundo da cultura (ou melhor, de uma cultura racional, ocidental e dominante), e o homem simples, mais próximo da natureza e de uma relação mística com o mundo. E como em tantas outras histórias que abordam esse tipo de relação (para citar algumas: O Solista, com Robert Downey Jr. e Jamie Fox; Nell, com Jodie Foster e Liam Nieson; o personagem Manuelzão, de Guimarães Rosa...), há uma sensibilização e um aprendizado por parte do homem civilizado, encantado com a simplicidade e a sabedoria do homem simples.


Poderia soar banal e repetitivo, não fosse o talento do diretor. Para mim, o bom diretor de cinema é um bom contador de histórias. Alguns alcançam esse patamar apenas com a força da narrativa "crua", na qual a imagem apenas substitui as letras e o texto de um livro. Outros, acrescentam grande carga estética ao recurso visual, caprichando na fotografia ou mesmo em efeitos visuais computadorizados. Uma boa trilha sonora também ajuda a ambos os tipos de contadores de histórias.
Conhecia de Kurosawa apenas dois de seus filmes, fortemente visuais: Ran, com suas impressionantes cenas de batalhas, e Sonhos, um espetáculo de cores e imagens oniricas. No início de Dersu Uzala, me pareceu que o filme seria bom apenas pela bonita e simples narrativa - e mesmo aí já aparece o gênio de Kurosawa, que trata um velho tema sem ser repetitivo ou piegas, com uma leveza e uma sensibilidade envolventes. Mas o filme também traz a marca do diretor (e de seu ótimo diretor de fotografia) com as belas imagens da Sibéria (gostei especialmente da sequência em que Dersu e Arseniev lutam para se proteger do frio, enquanto o sol se põe sobre um lago congelado) e, no final, com uma imagem deliberadamente carregada de simbolismo e efeitos de cores, luzes e sombras (o tigre passeando entre a escuridão e misteriosas luzes vermelhas, representando o medo de Dersu, velho e com dificuldade de enxegar, diante da floresta e seus espíritos).

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Valsa com Bashir



Não costumo gostar de filmes de guerra. Poucos são os que retratam de forma profunda a diversidade de sentimentos e aflições que atingem os envolvidos. Valsa com Bashir (2008, vencedor de Globo de Ouro) é um desses.

Trata-se de uma animação (com cenas reais) que relata a reconstrução, pelo próprio diretor (Ari Folman), dos acontecimentos da guerra do Líbano, em 1982. Folman tenta resgatar sua memória, obnubilada pelo horror do massacre de Sabra e Shatila, partindo em busca de colegas que serviram o exército consigo.

Os relatos, colhidos em forma de documentário, são confrontados com o correr de cenas de animação, algumas surreais, que realçam detalhes históricos e amenizam a visão do espectador, tornando palatável, poética e humana a trajetória que se persegue, juntamente com o personagem principal. Ao mesmo tempo, a estupidez da guerra nos é apresentada sem pudores: a animação suaviza esse impacto. Ao final, a exposição de cenas reais e a dissipação das sombras que cobriam a memória do protagonista nos leva a nocaute: sente-se o horror do massacre, dos campos de concentração, dos genocídios, dos fundamentalismos de todo o tipo, da irracionalidade desumana, paralisante; sente-se a culpa do diretor pela indesculpável inércia que o tornou partícipe de uma ação similar àquela praticada contra seu povo, na 2ª Guerra.

Saí mudo da sala...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Minhas Tardes com Margueritte


Simples e Sensível.

Germain (Gerard Depardieu) é um homem rude, ingênuo, com pouca instrução. Humilhado pela mãe desde a infância, é alvo de chacota pelos amigos, e se sente menor do que os outros em razão de sua (suposta) limitação intelectual. Margueritte, uma senhorinha solitária que tem paixão pelos livros. Em comum, ambos têm a sensibilidade e é por isso que se encontram: Margueritte observa como Germain conta e põe nome em cada um dos pombos que vivem no parque.

A partir daí, seus encontros são quase que diários: Margueritte lê para Germain e faz com que ele se aproxime novamente dos livros, mergulhe nas estórias que vêm deles. E essa amizade traz grandes repercussões na vida dos dois, numa estória de amor verdadeira e incomum, como o personagem de Depardieu se refere ao final.

Parece ter sido intencional a compleição física dos personagens: ele é grande, obeso, desajeitado; Marguerritte é delicada, magrinha, elegante. Tão diferentes e tão afinados.

Alguns temas que poderiam ser transformados em clichês, como o "bullyng" sofrido pelo protagonista, sua relação conturbada com a mãe, são tratados com sensibilidade e delicadeza pelo diretor. Com pitadas de humor, a estória dessa amizade genuína emociona. Pessoalmente, me peguei pensando como as pessoas atravessam nossa vida por acaso e operam mudanças no nosso microcosmo. Parece que o filme conseguiu fugir do clichê, mas eu não consegui, para falar dele.



quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Mamute


Mamute narra desventuras de um açougueiro (Gérard Depardieu) que, em busca de sua aposentadoria, sai em viagem para obter comprovantes de tempo de serviço. O filme conta com o desempenho excelente do ator, que transita entre drama e comédia com desenvoltura.
Há cenas muito engraçadas, inesperadas, que tentam marcar o despontar de sentimentos sofisticados guardados no couro do açougueiro simples, meio inocente, ingênuo e bruto. No entanto, esse despontar, parece-me, poderia ter sido melhor desenvolvido. Apesar de gostar do filme, fiquei com a impressão de que algumas cenas tinham mais intenção de promover uma linguagem "cult" do que a figuração que - imagino - seria necessária para construir a transformação da personagem.
Não pude deixar de comparar Mamute com Minhas Tardes com Margueritte (resenha ainda pendente nesse espaço): sob um ângulo diferente, mas com semelhanças marcantes, os dois filmes revelam sentimentos, pensamentos e trajetórias de personagens (protagonizados pelo mesmo ator) simples, mas de caráter e emoção significativos. Na comparação, Minhas Tardes pareceu-me superior, em termos de simplicidade e de profundidade, o que não afasta os méritos e a graça de Mamute.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Gainsbourg- O Homem que amava as mulheres

Um filme biográfico gostoso. Gainsbourg, nome artístico de Lucién Ginzburg (1928-1991), foi um artista francês, poeta, desenhista, músico e cantor, cujas feições caricatas permitem a construção de uma personagem sedutora e polêmica...

O filme adota uma interessante forma de traduzir conflitos internos do protagonista, com elementos lúdicos. Lucién e, mais tarde, Serge contracenam com seu alter ego. O filme conta com grande atuação de Eric Elmosnino (muito parecido com o próprio Gainsbourg, cuja foto segue ao lado) no papel principal.

Impossível não nos deleitarmos com algumas das sacadas do sedutor, desde criança irremediavelmente ligado às mulheres; à sedução, contrapõe-se o lado perigoso do vício. Mas não é um relato histórico, fiel e imparcial. O filme tem uma declarada visão romanceada da vida do poeta; essa visão é mais uma homenagem ao protagonista, tanto que, no final, o diretor afirma, a respeito de Gainsbourg: "Gosto de suas verdades, mas prefiro as suas mentiras".

Esse filme me lembrou duas frases do irlandês George Best: "Gastei muito dinheiro com bebidas, mulheres e carros. O resto eu desperdicei"; "Em 1969, eu abandonei as mulheres e o álcool. Foram os 20 piores minutos de minha vida"! Best foi um gênio do futebol, considerado por muitos o melhor jogador do mundo, mas nunca chegou a jogar uma Copa do Mundo. Seu brilho durou pouco, em virtude dos excessos. No filme, essa visão romanceada que nos é apresentada remonta ao elã que esses lemas invocam, de uma época em que luxúria, álcool, cigarros e poesia formam expressão de uma arte transgressora e sedutora...

Abraços!

domingo, 17 de julho de 2011

The Godfather


Acordei no meio da madrugada, nessa sexta-feira, e, como não conseguia voltar a dormir, o jeito foi ligar a televisão.... estava começando a primeira parte de O Poderoso Chefão. A história e mesmo o filme dispensam apresentações, é o clássico dos filmes de máfia, tanto a primeira parte quanto a segunda ganharam Oscar etc.. Impecável direção, consegue unir arte, emoção e violência numa trilogia épica que até hoje é referência em matéria de cinema. Mesmo assim, e mesmo sendo a enésima vez que vejo, acho interessante fazer alguns comentários.

Primeiro, sobre o fascínio que a famiglia nos provoca. Assistimos às manobras de Michael Corleone para recuperar o prestígio e o poder abalados pela guerra da máfia nova-iorquina e vibramos com sua perspicácia, ao planejar o assassínio dos chefes das outras famílias e dos seus traidores. Mario Puzo, escritor do livro e do roteiro, foi acusado de fazer apologia à máfia. Houve comentários de que o "sindicato" teria financiado as filmagens e influenciado nas premiações. Pouco importa, o fato é que gostamos dos Corleone. Por que? O romance e a filmagem são, mesmo, parciais. Vito Corleone, primeiro, e depois Michael, têm valores louváveis. Vito "salva" a comunidade em que vive, ao matar o homem que a todos extorquia. Coloca todos sob sua "proteção", à custa, somente, de possíveis favores no futuro; os Corleone não se envolvem com narcóticos, mas com contrabando de bebidas, jogo e prostituição, atividades aceitas, em geral. E seus valores são aparentemente "justos", numa "justiça" inflexível, em que a traição se resolve com a morte. Só vemos a morte dos traidores, daqueles que também tentam matar os nossos "heróis".

Mas não é só essa parcialidade que nos atrai. Há uma humanidade apresentada aos Chefões e mesmo aos operários da máfia que nos identifica. A trama revela os dramas pessoais das personagens, muito bem construídas. Essa humanidade e os valores "justos" desses mafiosos nos absolve e permite nos regozijarmos com o poder dessa família. Acho, também, que o fato de serem imigrantes facilita essa identificação, muito próxima de nossa história. Somos condicionados a crer na solução legal, pacífica, para os conflitos, colocada pelo Estado em contraste à disputa das partes. Do contrário, seria impossível a vida em sociedade. Mas nossos impulsos inconscientes buscam poder... veja-se a conquista de uma pessoa por exemplo: ela traz tamanha satisfação também porque representa uma demonstração de poder sobre o outro. Demonstra-o o fato de que essa satisfação nem sempre guarda relação com a pessoa do outro, com aquela determinada mulher ou aquele determinado rapaz. Penso que o filme sublima essa nossa ânsia de poder (em geral), que vemos nos Corleone de maneira caricata mas que, inconscientemente, toca e (por pior que isso possa parecer) se identifica conosco, ainda que refutemos cada uma das ações do mafioso.

O segundo comentário é mais bucólico: gosto muito das cenas da Sicília, cujos lugarejos pobres e paisagens amplas se combinam a personagens e tradições muito próprias. Acho muito legal as cenas de Michael começando a sair com Apolônia, seguido dos familiares da moça.... Toda vez que vejo, fico com vontade de conhecer a região.

Um outro filme bom a se assistir é "Minhas Tardes com Margueritte". Uma beleza. Aguardo os comentários de uma amiga, que assistiu o filme e tem condições de fazê-los melhor que eu.

Abraços!


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Mais estranho que a ficção (2006)


Ontem, acabando o prêmio da música brasileira, fiquei um pouco a mais no sofá (a maldita inércia), o suficiente para que se iniciasse o filme da sessão de gala, na globo. Pensei: aposto que o filme que vai passar é bem melhor do que o do Domingo Maior (invariavelmente um lixo....). Não deu outra: fui surpreendido por um filme bom, com roteiro diferenciado e ótimas atuações.
Harold (Will Ferrell) é um auditor da receita que, a partir de um dado momento, interage com a narradora do filme. Ele se vê enlouquecendo com as vozes dessa mulher e procura ajuda médica, até que chega a Hilbert (Dustin Hoffman), um professor de literatura que acaba por compreender o drama do protagonista. Paralelamente, Harold se envolve com uma contribuinte e tem sua vida transformada, em parte por suas emoções, em parte por se descobrir no meio de uma trama que não pode controlar. Paradoxalmente, essa loucura o traz de volta à sanidade. O filme desenvolve - bem - a tensão comédia e drama através de passagens sutilmente engraçadas, revelando uma fineza de humor rara nos filmes americanos. O modo não usual de interação narrativa-personagem é interessante e as atuações atuações de Will Ferrell, Dustin Hoffman e Emma Thompson estão excelentes.

Enfim, o filme é bom. O problema é ter de aguentar até 3:30 para ir dormir...

Abraços!

sábado, 2 de julho de 2011

Touro Moreno

Na quinta-feira à noite, apenas por um acaso, assisti a um ótimo documentário no programa doc.tv, da TV Cultura. Peguei o filme começando, assisti aos primeiros minutos para ver do que se tratava, e quando vi que falava de boxe, esporte que gosto muito, resolvi assisti-lo todo. É um ótimo documentário, bem realizado (em formato digital) e editado, com trilha sonora envolvente e uma alternância dos depoimentos que dá boa dinâmica ao filme.



É a história do lutador Touro Moreno, uma espécie de lenda do boxe capixaba, e que, à época do filme, aos 69 anos de idade (isso mesmo, 69 anos!) se prepara para desafiar um lutador pelo menos uns 25 anos mais jovem. Como disse, gosto de boxe, e só a temática já vale o filme (a propósito, o encontro da "sétima arte" com a "nobre arte" já é uma tradição e rendeu ótimos filmes, como Quando Éramos Reis, Touro Indomável e Menina de Ouro). Também disse que o filme é bem realizado, o que conta muito, especialmente no gênero documentários, no qual muitas vezes os filmes pecam por falta de ritmo e cuidado visual e de edição. Mas, mais do que isso, a história é muito interessante, pois mostra um homem vivendo uma vida bastante modesta, orgulhoso e apegado a um passado glorioso. Passado, aliás, não tão glorioso assim, pois os depoimentos deixam claro que Touro Moreno poderia ter sido um grande atleta, se não fosse sua vida boêmia, que gerou certas confusões e falta de disciplina, e sua inserção pela luta livre ao estilo Telecatch, que acabou despretigiando sua atuação profissional. Mas, por tudo isso, o personagem é interessantíssimo, e sua história, fascinante.

Impressiona muito a transformação de um senhor flácido, que aparece nas primeiras imagens, em um forte e rijo lutador, nas últimas sequências e ao final do treinamento. Inteligentemente, essa transformação acontece em paralelo (e em sentido contrário) à reconstrução da trajetória do Touro, de sua glória inicial aos problemas de comportamento e ao esquecimento parcial. No fim, a tal luta para o qual Touro Moreno se preparava não aparece, e não se sabe seu resultado. Mas acho que nem precisa, pois o filme já termina com um vencedor.

sábado, 25 de junho de 2011

O homem do lado




Tenho por hábito assistir as novidades do cinema argentino. Não raro, surpreendem positivamente, pela beleza e pelo toque latino com que as narrativas se desenvolvem, providas de uma emoção e um tempo diferenciados.




Os dois últimos filmes que assisti, contudo, apresentaram uma nuance um pouco diferente, mais sombria, mais crítica acerca da natureza humana. Um deles, Abutres, causou intensa polêmica e rendeu - dizem - alterações no sistema de pagamento de indenizações em virtude de acidentes de trânsito.




Já em O homem do lado, os diretores narram a história de um conflito entre vizinhos por causa da abertura de uma janela, com vistas para a casa do outro. No curso dessa história, aparentemente singela, tensões e situações cômicas criam um ambiente angustiante, próprio para o desenvolvimento de neuroses.




Acho interessante como o filme trata da concepção de "eu ter um direito", qualquer que seja, como uma propriedade (próprio da concepção moderna de direito e de liberdade, aliás), cujo uso abusivo pode ser surpreendentemente nocivo. O filme mostra a desconstrução de valores morais envernizados numa personalidade frágil, a partir de uma neurose que se constrói exatamente sobre valores liberais-burgueses. Sutilmente o "fascismo" é construído através de medos e concepções autoritárias, quiçá exacerbadas num sujeito bem-sucedido e enebriado pela fama, mas também presentes em todos nós, pois são valores cultuados em nossa sociedade: basta ter em mente a noção de liberdade como um direito excludente em relação ao outro, seja Estado ou particular. Outro aspecto interessante é a figura da parede como algo que não separa apenas duas pessoas, separa um estatuto, uma força, uma maneira de ver (a expressão é de Jorge Pereira, resenha disponível em http://www.c7nema.net/).


Peço licença para um comentário pessoal. Muito embora não tenha relação com o filme, essa imagem me fez lembrar a casa de meus pais. Amigos, os vizinhos tornaram-se tão próximos que fizeram uma escada para pular de uma casa à outra, sem ter de sair até o portão da frente. A escada tornou-se signo de união e amizade, um antídoto à separação imposta pelo muro. Impressiona - provoca risos, comentários - amigos e familiares, a ponto de ter sido objeto de poema. Não o tenho em mãos, mas me lembro da emoção que sua leitura nos provocou. A relação que vejo entre a parede do filme e a escada é a forma como a divisão do espaço físico, privado ou público influencia a relação entre as pessoas, atua sobre seu próprio modo de ver as coisas, interfere e constrói a visão dos envolvidos (por que não dizer, influencia na personalidade do indivíduo?). No caso do filme, a parede separa uma maneira de ver, mas também define a relação entre os vizinhos. No caso de minha família, a escada influenciou a nossa relação com nossos vizinhos, transformando-a de forma única. No espaço público, os loteamentos fechados definem uma nova relação entre os condôminos e o espaço comum (praças, clubes etc.)....


O filme foi premiado no Festival de Sundance. Vale a pena conferir.




Abraços!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Meia-noite em Paris




Saí do cinema maravilhado com o novo filme do Woody Allen. As resenhas falam, com razão, em tributo a Paris, mas o filme é muito mais do que isso. Homenageia-se um tempo romântico de viver mais lentamente (slowlife), que combina com o estilo europeu de ser e que cada vez mais nos é afastado pelo ritmo frenético das demandas profissionais. Mas também não é só isso. De forma muito leve, o filme toca os recônditos da alma de formas diversas, provocando emoção, alegria, apreensão, surpresa e reflexão. Com elementos fantásticos, o diretor leva o espectador a se deliciar com os percalços do escritor inseguro, numa exortação à coragem e à liberdade, que se manifesta pelo próprio formato da película. E, ao mesmo tempo, retoma o caráter transformador da arte: como uma experiência que deve ser vivida, experimentada de forma despretensiosa. A crítica ao pedante pseudointelectual é muito engraçada. Melhor parar por aqui, para não estragar a surpresa. Os filmes completos, como O filho da noiva, O segredo de seus olhos, Abraços partidos têm disso: experimentamos vários sentimentos, reencontramos nossa humanidade. E ficamos besta (para usar uma expressão do interior) com ela!








Curiosamente, ontem o dia estava propício para caminhadas. O dia claro, a temperatura agradável, o fato de ser domingo, isso me levou à Avenida Paulista, um verdadeiro parque urbano. As pessoas caminhavam, namoravam, corriam, enfim, passeavam pelas largas calçadas da Avenida, deparando-se com obras de arte, com a Feira do MAsp, com protesto organizado contra a construção da usina de Belo Monte... Comigo não foi diferente. Estava sozinho. Almocei num restaurante próximo à Rua Augusta e saí andando, parando, conversando pequenas coisas até chegar ao Reserva Cultural. Saí pensando no filme que acabara de ver e me senti quase que num ambiente parisiente: não tão belo, nem mágico, mas ainda assim encantador...







Abraços!




sábado, 18 de junho de 2011

Existe emoção nas coisas feitas pelo capitalismo?

Está fazendo bastante sucesso o curta-metragem Eduardo & Mônica, dirigido por Nando Olival, produzido pela O2 (do cineasta Fernando Meirelles), e realizado sob encomenda da operadora de telefonia Vivo. Esse último detalhe eu só vi no final, embora a frequência com que celulares e tablets aparecessem ao longo do filme tivesse me chamado atenção ("pô, parece propaganda de celular!").
Como fã de Legião Urbana, adorei o filme. Além de bem produzido e dirigido, transferiu com perfeição a música para o cinema. Chegou a me emocionar - especialmente na sequência "seguraram legal a barra mais pesada que tiveram", em que Mônica abraça, solidária, o marido Eduardo. Houve quem criticasse o fato de que as sequências não foram gravadas em Brasília (cidade da história original da música), mas sim em São Paulo; achei um detalhe menor, pois vale a essência da história, que é uma bonita história de amor - e por isso mesmo, universal. A única ressalva que faço é sobre a dificuldade de representar um Eduardo mais velho, que acompanha a história do casal, usando um ator tão novo - suas cenas finais, com óculos e terno, são meio forçadas...
Mas enfim, o filme é isso: um comercial de operadora de telefonia, que utiliza um novo canal de comunicação (o YouTube) para difundir um vídeo comercial com duração superior ao dos espaços negociados na TV. Ser um comercial tira o mérito do filme? Não sei, mas por um apego talvez um pouco ingênuo (ou idealista) à música e a banda originais, me senti um pouco ofendido pela sua "apropriação" comercial. Por outro lado, como disse, o filme me trouxe lágrimas aos olhos. E isso, no fundo, despertou minha crítica e minha reflexão: maldito capitalismo, que usa histórias de amor e uma das músicas mais famosas de uma das bandas mais importantes do rock nacional para vender celular!
É possível separar a arte do filme (um belo e bem produzido filme) de seu objetivo comercial (vender celulares na semana do Dia dos Namorados)? Mais do que isso: há, hoje, arte sem objetivo comercial? Certamente há, mas a chamamos de "alternativa" ou "underground" pois passa ao largo de nossos hábitos (de consumo) culturais. Filmes "de arte" são produzidos com dinheiro, para se ganhar mais dinheiro. Filmes "comerciais" (ou blockbusters) também, em uma escala maior e com esse objetivo comercial mais escancarado. E ambos nos entretêm, agradam, divertem, emocionam e fazem pensar. Produção, distribuição, divulgação - todas elas, operações comerciais. O cinema nacional (mas não só ele) vive do patrocícnioA própria Legião Urbana vendia discos - e ganhou um bom dinheiro com o disco Dois, que projetou a banda graças a sucessos como Eduardo e Mônica. Além disso, devemos reconhecer, há bons comerciais, que muitas vezes fazem história e aderem à nossa memória mais do que os produtos que pretendiam vender. E também há grandes diretores e roteiristas que começaram a carreira atuando em publicidade.
No fim das contas, ainda sob a euforia causada pelo curta, descobriu-se um outro vídeo, um pouco mais antigo e de outra operadora de celular, também baseado na música da Legião Urbana e incrivelmente parecido com a produção patrocinada pela Vivo. Isso apagou de vez o lado "artístico" do curta, e evidenciou a "alma do negócio": copiar e vender.

domingo, 12 de junho de 2011

Eu vi uma peça!

A alma imoral. Não é cinematográfica, mas como arte-irmã, vale a indicação de uma experiência teatral fantástica. Adaptação de Clarice Niskier sobre texto de Nilton Bonder, é um monólogo que toca profundamente as angústias e dilemas do homem normalizado pela culpa: com base no eixo corpo moral/alma imoral, discorre sobre certo-errado, controle-liberdade, obediência-desobediência, culpa-não culpa. Emocionante. Impressiona a leitura filosófica de um texto denso, sem, contudo, a arrogância que costuma marcar monólogos desse tipo. É um grito libertário, humano, em favor de nossas vicissitudes. As palavras da atriz gravam profundamente, exigindo um tempo de reflexão. A peça deve sair de cartaz em breve.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Uma ideia na cabeça, um teclado nas mãos

 Este blog é um espaço para falarmos de arte. Não acreditamos que possamos desvendar a verdade absoluta de uma obra artística, sequer achamos que isso seja interessante. Gostamos de falar de gente, de falar de nós, nada melhor que um bom  filme para despertar, com sutilezas ou socos, os assuntos que  tocam fundo na alma humana. Assim vamos compartilhando por aqui nossas experiências com o cinema, confiando na certeza de que múltiplos sujeitos podem captar melhor os múltiplos aspectos que um filme traz.
 Nada disso. Esse blog é a tentativa de resolver um problema entre velhos amigos. Já faz muito tempo que não vemos um filme juntos, devido a inúmeras inconveniências da vida moderna. Assim, perdemos uma parte muito importante da experiência cinematográfica, a mesa de bar, com cerveja ou café, em que sem o dever, comentávamos, descompromissados, o que tínhamos visto. Sempre achei que ali havia matéria bruta para uma obra prima. Se não temos a espontaneidade de fazer ao vivo e explícito, que façamos virtualmente, onde temos a possibilidade de alcançar mais pessoas amigas e deixar tudo registrado para, no futuro, rir e relembrar.