
Por falhar em palhaço.... que beleza de filme!



Não costumo gostar de filmes de guerra. Poucos são os que retratam de forma profunda a diversidade de sentimentos e aflições que atingem os envolvidos. Valsa com Bashir (2008, vencedor de Globo de Ouro) é um desses.
Trata-se de uma animação (com cenas reais) que relata a reconstrução, pelo próprio diretor (Ari Folman), dos acontecimentos da guerra do Líbano, em 1982. Folman tenta resgatar sua memória, obnubilada pelo horror do massacre de Sabra e Shatila, partindo em busca de colegas que serviram o exército consigo.
Os relatos, colhidos em forma de documentário, são confrontados com o correr de cenas de animação, algumas surreais, que realçam detalhes históricos e amenizam a visão do espectador, tornando palatável, poética e humana a trajetória que se persegue, juntamente com o personagem principal. Ao mesmo tempo, a estupidez da guerra nos é apresentada sem pudores: a animação suaviza esse impacto. Ao final, a exposição de cenas reais e a dissipação das sombras que cobriam a memória do protagonista nos leva a nocaute: sente-se o horror do massacre, dos campos de concentração, dos genocídios, dos fundamentalismos de todo o tipo, da irracionalidade desumana, paralisante; sente-se a culpa do diretor pela indesculpável inércia que o tornou partícipe de uma ação similar àquela praticada contra seu povo, na 2ª Guerra.
Saí mudo da sala...
Germain (Gerard Depardieu) é um homem rude, ingênuo, com pouca instrução. Humilhado pela mãe desde a infância, é alvo de chacota pelos amigos, e se sente menor do que os outros em razão de sua (suposta) limitação intelectual. Margueritte, uma senhorinha solitária que tem paixão pelos livros. Em comum, ambos têm a sensibilidade e é por isso que se encontram: Margueritte observa como Germain conta e põe nome em cada um dos pombos que vivem no parque.
A partir daí, seus encontros são quase que diários: Margueritte lê para Germain e faz com que ele se aproxime novamente dos livros, mergulhe nas estórias que vêm deles. E essa amizade traz grandes repercussões na vida dos dois, numa estória de amor verdadeira e incomum, como o personagem de Depardieu se refere ao final.
Parece ter sido intencional a compleição física dos personagens: ele é grande, obeso, desajeitado; Marguerritte é delicada, magrinha, elegante. Tão diferentes e tão afinados.
Alguns temas que poderiam ser transformados em clichês, como o "bullyng" sofrido pelo protagonista, sua relação conturbada com a mãe, são tratados com sensibilidade e delicadeza pelo diretor. Com pitadas de humor, a estória dessa amizade genuína emociona. Pessoalmente, me peguei pensando como as pessoas atravessam nossa vida por acaso e operam mudanças no nosso microcosmo. Parece que o filme conseguiu fugir do clichê, mas eu não consegui, para falar dele.
Um filme biográfico gostoso. Gainsbourg, nome artístico de Lucién Ginzburg (1928-1991), foi um artista francês, poeta, desenhista, músico e cantor, cujas feições caricatas permitem a construção de uma personagem sedutora e polêmica... 


