segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Valsa com Bashir



Não costumo gostar de filmes de guerra. Poucos são os que retratam de forma profunda a diversidade de sentimentos e aflições que atingem os envolvidos. Valsa com Bashir (2008, vencedor de Globo de Ouro) é um desses.

Trata-se de uma animação (com cenas reais) que relata a reconstrução, pelo próprio diretor (Ari Folman), dos acontecimentos da guerra do Líbano, em 1982. Folman tenta resgatar sua memória, obnubilada pelo horror do massacre de Sabra e Shatila, partindo em busca de colegas que serviram o exército consigo.

Os relatos, colhidos em forma de documentário, são confrontados com o correr de cenas de animação, algumas surreais, que realçam detalhes históricos e amenizam a visão do espectador, tornando palatável, poética e humana a trajetória que se persegue, juntamente com o personagem principal. Ao mesmo tempo, a estupidez da guerra nos é apresentada sem pudores: a animação suaviza esse impacto. Ao final, a exposição de cenas reais e a dissipação das sombras que cobriam a memória do protagonista nos leva a nocaute: sente-se o horror do massacre, dos campos de concentração, dos genocídios, dos fundamentalismos de todo o tipo, da irracionalidade desumana, paralisante; sente-se a culpa do diretor pela indesculpável inércia que o tornou partícipe de uma ação similar àquela praticada contra seu povo, na 2ª Guerra.

Saí mudo da sala...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Minhas Tardes com Margueritte


Simples e Sensível.

Germain (Gerard Depardieu) é um homem rude, ingênuo, com pouca instrução. Humilhado pela mãe desde a infância, é alvo de chacota pelos amigos, e se sente menor do que os outros em razão de sua (suposta) limitação intelectual. Margueritte, uma senhorinha solitária que tem paixão pelos livros. Em comum, ambos têm a sensibilidade e é por isso que se encontram: Margueritte observa como Germain conta e põe nome em cada um dos pombos que vivem no parque.

A partir daí, seus encontros são quase que diários: Margueritte lê para Germain e faz com que ele se aproxime novamente dos livros, mergulhe nas estórias que vêm deles. E essa amizade traz grandes repercussões na vida dos dois, numa estória de amor verdadeira e incomum, como o personagem de Depardieu se refere ao final.

Parece ter sido intencional a compleição física dos personagens: ele é grande, obeso, desajeitado; Marguerritte é delicada, magrinha, elegante. Tão diferentes e tão afinados.

Alguns temas que poderiam ser transformados em clichês, como o "bullyng" sofrido pelo protagonista, sua relação conturbada com a mãe, são tratados com sensibilidade e delicadeza pelo diretor. Com pitadas de humor, a estória dessa amizade genuína emociona. Pessoalmente, me peguei pensando como as pessoas atravessam nossa vida por acaso e operam mudanças no nosso microcosmo. Parece que o filme conseguiu fugir do clichê, mas eu não consegui, para falar dele.



quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Mamute


Mamute narra desventuras de um açougueiro (Gérard Depardieu) que, em busca de sua aposentadoria, sai em viagem para obter comprovantes de tempo de serviço. O filme conta com o desempenho excelente do ator, que transita entre drama e comédia com desenvoltura.
Há cenas muito engraçadas, inesperadas, que tentam marcar o despontar de sentimentos sofisticados guardados no couro do açougueiro simples, meio inocente, ingênuo e bruto. No entanto, esse despontar, parece-me, poderia ter sido melhor desenvolvido. Apesar de gostar do filme, fiquei com a impressão de que algumas cenas tinham mais intenção de promover uma linguagem "cult" do que a figuração que - imagino - seria necessária para construir a transformação da personagem.
Não pude deixar de comparar Mamute com Minhas Tardes com Margueritte (resenha ainda pendente nesse espaço): sob um ângulo diferente, mas com semelhanças marcantes, os dois filmes revelam sentimentos, pensamentos e trajetórias de personagens (protagonizados pelo mesmo ator) simples, mas de caráter e emoção significativos. Na comparação, Minhas Tardes pareceu-me superior, em termos de simplicidade e de profundidade, o que não afasta os méritos e a graça de Mamute.