segunda-feira, 25 de julho de 2011

Gainsbourg- O Homem que amava as mulheres

Um filme biográfico gostoso. Gainsbourg, nome artístico de Lucién Ginzburg (1928-1991), foi um artista francês, poeta, desenhista, músico e cantor, cujas feições caricatas permitem a construção de uma personagem sedutora e polêmica...

O filme adota uma interessante forma de traduzir conflitos internos do protagonista, com elementos lúdicos. Lucién e, mais tarde, Serge contracenam com seu alter ego. O filme conta com grande atuação de Eric Elmosnino (muito parecido com o próprio Gainsbourg, cuja foto segue ao lado) no papel principal.

Impossível não nos deleitarmos com algumas das sacadas do sedutor, desde criança irremediavelmente ligado às mulheres; à sedução, contrapõe-se o lado perigoso do vício. Mas não é um relato histórico, fiel e imparcial. O filme tem uma declarada visão romanceada da vida do poeta; essa visão é mais uma homenagem ao protagonista, tanto que, no final, o diretor afirma, a respeito de Gainsbourg: "Gosto de suas verdades, mas prefiro as suas mentiras".

Esse filme me lembrou duas frases do irlandês George Best: "Gastei muito dinheiro com bebidas, mulheres e carros. O resto eu desperdicei"; "Em 1969, eu abandonei as mulheres e o álcool. Foram os 20 piores minutos de minha vida"! Best foi um gênio do futebol, considerado por muitos o melhor jogador do mundo, mas nunca chegou a jogar uma Copa do Mundo. Seu brilho durou pouco, em virtude dos excessos. No filme, essa visão romanceada que nos é apresentada remonta ao elã que esses lemas invocam, de uma época em que luxúria, álcool, cigarros e poesia formam expressão de uma arte transgressora e sedutora...

Abraços!

domingo, 17 de julho de 2011

The Godfather


Acordei no meio da madrugada, nessa sexta-feira, e, como não conseguia voltar a dormir, o jeito foi ligar a televisão.... estava começando a primeira parte de O Poderoso Chefão. A história e mesmo o filme dispensam apresentações, é o clássico dos filmes de máfia, tanto a primeira parte quanto a segunda ganharam Oscar etc.. Impecável direção, consegue unir arte, emoção e violência numa trilogia épica que até hoje é referência em matéria de cinema. Mesmo assim, e mesmo sendo a enésima vez que vejo, acho interessante fazer alguns comentários.

Primeiro, sobre o fascínio que a famiglia nos provoca. Assistimos às manobras de Michael Corleone para recuperar o prestígio e o poder abalados pela guerra da máfia nova-iorquina e vibramos com sua perspicácia, ao planejar o assassínio dos chefes das outras famílias e dos seus traidores. Mario Puzo, escritor do livro e do roteiro, foi acusado de fazer apologia à máfia. Houve comentários de que o "sindicato" teria financiado as filmagens e influenciado nas premiações. Pouco importa, o fato é que gostamos dos Corleone. Por que? O romance e a filmagem são, mesmo, parciais. Vito Corleone, primeiro, e depois Michael, têm valores louváveis. Vito "salva" a comunidade em que vive, ao matar o homem que a todos extorquia. Coloca todos sob sua "proteção", à custa, somente, de possíveis favores no futuro; os Corleone não se envolvem com narcóticos, mas com contrabando de bebidas, jogo e prostituição, atividades aceitas, em geral. E seus valores são aparentemente "justos", numa "justiça" inflexível, em que a traição se resolve com a morte. Só vemos a morte dos traidores, daqueles que também tentam matar os nossos "heróis".

Mas não é só essa parcialidade que nos atrai. Há uma humanidade apresentada aos Chefões e mesmo aos operários da máfia que nos identifica. A trama revela os dramas pessoais das personagens, muito bem construídas. Essa humanidade e os valores "justos" desses mafiosos nos absolve e permite nos regozijarmos com o poder dessa família. Acho, também, que o fato de serem imigrantes facilita essa identificação, muito próxima de nossa história. Somos condicionados a crer na solução legal, pacífica, para os conflitos, colocada pelo Estado em contraste à disputa das partes. Do contrário, seria impossível a vida em sociedade. Mas nossos impulsos inconscientes buscam poder... veja-se a conquista de uma pessoa por exemplo: ela traz tamanha satisfação também porque representa uma demonstração de poder sobre o outro. Demonstra-o o fato de que essa satisfação nem sempre guarda relação com a pessoa do outro, com aquela determinada mulher ou aquele determinado rapaz. Penso que o filme sublima essa nossa ânsia de poder (em geral), que vemos nos Corleone de maneira caricata mas que, inconscientemente, toca e (por pior que isso possa parecer) se identifica conosco, ainda que refutemos cada uma das ações do mafioso.

O segundo comentário é mais bucólico: gosto muito das cenas da Sicília, cujos lugarejos pobres e paisagens amplas se combinam a personagens e tradições muito próprias. Acho muito legal as cenas de Michael começando a sair com Apolônia, seguido dos familiares da moça.... Toda vez que vejo, fico com vontade de conhecer a região.

Um outro filme bom a se assistir é "Minhas Tardes com Margueritte". Uma beleza. Aguardo os comentários de uma amiga, que assistiu o filme e tem condições de fazê-los melhor que eu.

Abraços!


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Mais estranho que a ficção (2006)


Ontem, acabando o prêmio da música brasileira, fiquei um pouco a mais no sofá (a maldita inércia), o suficiente para que se iniciasse o filme da sessão de gala, na globo. Pensei: aposto que o filme que vai passar é bem melhor do que o do Domingo Maior (invariavelmente um lixo....). Não deu outra: fui surpreendido por um filme bom, com roteiro diferenciado e ótimas atuações.
Harold (Will Ferrell) é um auditor da receita que, a partir de um dado momento, interage com a narradora do filme. Ele se vê enlouquecendo com as vozes dessa mulher e procura ajuda médica, até que chega a Hilbert (Dustin Hoffman), um professor de literatura que acaba por compreender o drama do protagonista. Paralelamente, Harold se envolve com uma contribuinte e tem sua vida transformada, em parte por suas emoções, em parte por se descobrir no meio de uma trama que não pode controlar. Paradoxalmente, essa loucura o traz de volta à sanidade. O filme desenvolve - bem - a tensão comédia e drama através de passagens sutilmente engraçadas, revelando uma fineza de humor rara nos filmes americanos. O modo não usual de interação narrativa-personagem é interessante e as atuações atuações de Will Ferrell, Dustin Hoffman e Emma Thompson estão excelentes.

Enfim, o filme é bom. O problema é ter de aguentar até 3:30 para ir dormir...

Abraços!

sábado, 2 de julho de 2011

Touro Moreno

Na quinta-feira à noite, apenas por um acaso, assisti a um ótimo documentário no programa doc.tv, da TV Cultura. Peguei o filme começando, assisti aos primeiros minutos para ver do que se tratava, e quando vi que falava de boxe, esporte que gosto muito, resolvi assisti-lo todo. É um ótimo documentário, bem realizado (em formato digital) e editado, com trilha sonora envolvente e uma alternância dos depoimentos que dá boa dinâmica ao filme.



É a história do lutador Touro Moreno, uma espécie de lenda do boxe capixaba, e que, à época do filme, aos 69 anos de idade (isso mesmo, 69 anos!) se prepara para desafiar um lutador pelo menos uns 25 anos mais jovem. Como disse, gosto de boxe, e só a temática já vale o filme (a propósito, o encontro da "sétima arte" com a "nobre arte" já é uma tradição e rendeu ótimos filmes, como Quando Éramos Reis, Touro Indomável e Menina de Ouro). Também disse que o filme é bem realizado, o que conta muito, especialmente no gênero documentários, no qual muitas vezes os filmes pecam por falta de ritmo e cuidado visual e de edição. Mas, mais do que isso, a história é muito interessante, pois mostra um homem vivendo uma vida bastante modesta, orgulhoso e apegado a um passado glorioso. Passado, aliás, não tão glorioso assim, pois os depoimentos deixam claro que Touro Moreno poderia ter sido um grande atleta, se não fosse sua vida boêmia, que gerou certas confusões e falta de disciplina, e sua inserção pela luta livre ao estilo Telecatch, que acabou despretigiando sua atuação profissional. Mas, por tudo isso, o personagem é interessantíssimo, e sua história, fascinante.

Impressiona muito a transformação de um senhor flácido, que aparece nas primeiras imagens, em um forte e rijo lutador, nas últimas sequências e ao final do treinamento. Inteligentemente, essa transformação acontece em paralelo (e em sentido contrário) à reconstrução da trajetória do Touro, de sua glória inicial aos problemas de comportamento e ao esquecimento parcial. No fim, a tal luta para o qual Touro Moreno se preparava não aparece, e não se sabe seu resultado. Mas acho que nem precisa, pois o filme já termina com um vencedor.