
Acordei no meio da madrugada, nessa sexta-feira, e, como não conseguia voltar a dormir, o jeito foi ligar a televisão.... estava começando a primeira parte de O Poderoso Chefão. A história e mesmo o filme dispensam apresentações, é o clássico dos filmes de máfia, tanto a primeira parte quanto a segunda ganharam Oscar etc.. Impecável direção, consegue unir arte, emoção e violência numa trilogia épica que até hoje é referência em matéria de cinema. Mesmo assim, e mesmo sendo a enésima vez que vejo, acho interessante fazer alguns comentários.
Primeiro, sobre o fascínio que a famiglia nos provoca. Assistimos às manobras de Michael Corleone para recuperar o prestígio e o poder abalados pela guerra da máfia nova-iorquina e vibramos com sua perspicácia, ao planejar o assassínio dos chefes das outras famílias e dos seus traidores. Mario Puzo, escritor do livro e do roteiro, foi acusado de fazer apologia à máfia. Houve comentários de que o "sindicato" teria financiado as filmagens e influenciado nas premiações. Pouco importa, o fato é que gostamos dos Corleone. Por que? O romance e a filmagem são, mesmo, parciais. Vito Corleone, primeiro, e depois Michael, têm valores louváveis. Vito "salva" a comunidade em que vive, ao matar o homem que a todos extorquia. Coloca todos sob sua "proteção", à custa, somente, de possíveis favores no futuro; os Corleone não se envolvem com narcóticos, mas com contrabando de bebidas, jogo e prostituição, atividades aceitas, em geral. E seus valores são aparentemente "justos", numa "justiça" inflexível, em que a traição se resolve com a morte. Só vemos a morte dos traidores, daqueles que também tentam matar os nossos "heróis".
Mas não é só essa parcialidade que nos atrai. Há uma humanidade apresentada aos Chefões e mesmo aos operários da máfia que nos identifica. A trama revela os dramas pessoais das personagens, muito bem construídas. Essa humanidade e os valores "justos" desses mafiosos nos absolve e permite nos regozijarmos com o poder dessa família. Acho, também, que o fato de serem imigrantes facilita essa identificação, muito próxima de nossa história. Somos condicionados a crer na solução legal, pacífica, para os conflitos, colocada pelo Estado em contraste à disputa das partes. Do contrário, seria impossível a vida em sociedade. Mas nossos impulsos inconscientes buscam poder... veja-se a conquista de uma pessoa por exemplo: ela traz tamanha satisfação também porque representa uma demonstração de poder sobre o outro. Demonstra-o o fato de que essa satisfação nem sempre guarda relação com a pessoa do outro, com aquela determinada mulher ou aquele determinado rapaz. Penso que o filme sublima essa nossa ânsia de poder (em geral), que vemos nos Corleone de maneira caricata mas que, inconscientemente, toca e (por pior que isso possa parecer) se identifica conosco, ainda que refutemos cada uma das ações do mafioso.
O segundo comentário é mais bucólico: gosto muito das cenas da Sicília, cujos lugarejos pobres e paisagens amplas se combinam a personagens e tradições muito próprias. Acho muito legal as cenas de Michael começando a sair com Apolônia, seguido dos familiares da moça.... Toda vez que vejo, fico com vontade de conhecer a região.
Um outro filme bom a se assistir é "Minhas Tardes com Margueritte". Uma beleza. Aguardo os comentários de uma amiga, que assistiu o filme e tem condições de fazê-los melhor que eu.
Abraços!