sábado, 25 de junho de 2011

O homem do lado




Tenho por hábito assistir as novidades do cinema argentino. Não raro, surpreendem positivamente, pela beleza e pelo toque latino com que as narrativas se desenvolvem, providas de uma emoção e um tempo diferenciados.




Os dois últimos filmes que assisti, contudo, apresentaram uma nuance um pouco diferente, mais sombria, mais crítica acerca da natureza humana. Um deles, Abutres, causou intensa polêmica e rendeu - dizem - alterações no sistema de pagamento de indenizações em virtude de acidentes de trânsito.




Já em O homem do lado, os diretores narram a história de um conflito entre vizinhos por causa da abertura de uma janela, com vistas para a casa do outro. No curso dessa história, aparentemente singela, tensões e situações cômicas criam um ambiente angustiante, próprio para o desenvolvimento de neuroses.




Acho interessante como o filme trata da concepção de "eu ter um direito", qualquer que seja, como uma propriedade (próprio da concepção moderna de direito e de liberdade, aliás), cujo uso abusivo pode ser surpreendentemente nocivo. O filme mostra a desconstrução de valores morais envernizados numa personalidade frágil, a partir de uma neurose que se constrói exatamente sobre valores liberais-burgueses. Sutilmente o "fascismo" é construído através de medos e concepções autoritárias, quiçá exacerbadas num sujeito bem-sucedido e enebriado pela fama, mas também presentes em todos nós, pois são valores cultuados em nossa sociedade: basta ter em mente a noção de liberdade como um direito excludente em relação ao outro, seja Estado ou particular. Outro aspecto interessante é a figura da parede como algo que não separa apenas duas pessoas, separa um estatuto, uma força, uma maneira de ver (a expressão é de Jorge Pereira, resenha disponível em http://www.c7nema.net/).


Peço licença para um comentário pessoal. Muito embora não tenha relação com o filme, essa imagem me fez lembrar a casa de meus pais. Amigos, os vizinhos tornaram-se tão próximos que fizeram uma escada para pular de uma casa à outra, sem ter de sair até o portão da frente. A escada tornou-se signo de união e amizade, um antídoto à separação imposta pelo muro. Impressiona - provoca risos, comentários - amigos e familiares, a ponto de ter sido objeto de poema. Não o tenho em mãos, mas me lembro da emoção que sua leitura nos provocou. A relação que vejo entre a parede do filme e a escada é a forma como a divisão do espaço físico, privado ou público influencia a relação entre as pessoas, atua sobre seu próprio modo de ver as coisas, interfere e constrói a visão dos envolvidos (por que não dizer, influencia na personalidade do indivíduo?). No caso do filme, a parede separa uma maneira de ver, mas também define a relação entre os vizinhos. No caso de minha família, a escada influenciou a nossa relação com nossos vizinhos, transformando-a de forma única. No espaço público, os loteamentos fechados definem uma nova relação entre os condôminos e o espaço comum (praças, clubes etc.)....


O filme foi premiado no Festival de Sundance. Vale a pena conferir.




Abraços!

Um comentário:

  1. mais escadas, menos muros! queremos a porta aberta, não apenas brechas nas paredes! Impressionante essa integração na casa de seus pais, raro de acontecer, precioso de viver. Lembrou-me o famoso bairro dos jardins de sampa, só que pelo exemplo inverso, o fracasso da integração. No projeto urbanístico do empreendimento, havia essas áreas, os tais jardins, meio públicos, meio privados, que integravam as casas do bairro. Enquanto a empresa loteadora arcou com os custos de manutenção da área, tudo funcionou bem, após a conclusão do empreendimento, os moradores não quiseram pagar, dizendo que era obrigação da prefeitura, que também não assumiu, dizendo que a área era privada. Enfim, parcelaram novamente a área, o que era jardim, virou construção, ou seja, fizeram os muros que não estavam no projeto inicial. Abraços!

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