
Tenho por hábito assistir as novidades do cinema argentino. Não raro, surpreendem positivamente, pela beleza e pelo toque latino com que as narrativas se desenvolvem, providas de uma emoção e um tempo diferenciados.
Os dois últimos filmes que assisti, contudo, apresentaram uma nuance um pouco diferente, mais sombria, mais crítica acerca da natureza humana. Um deles, Abutres, causou intensa polêmica e rendeu - dizem - alterações no sistema de pagamento de indenizações em virtude de acidentes de trânsito.
Já em O homem do lado, os diretores narram a história de um conflito entre vizinhos por causa da abertura de uma janela, com vistas para a casa do outro. No curso dessa história, aparentemente singela, tensões e situações cômicas criam um ambiente angustiante, próprio para o desenvolvimento de neuroses.
Acho interessante como o filme trata da concepção de "eu ter um direito", qualquer que seja, como uma propriedade (próprio da concepção moderna de direito e de liberdade, aliás), cujo uso abusivo pode ser surpreendentemente nocivo. O filme mostra a desconstrução de valores morais envernizados numa personalidade frágil, a partir de uma neurose que se constrói exatamente sobre valores liberais-burgueses. Sutilmente o "fascismo" é construído através de medos e concepções autoritárias, quiçá exacerbadas num sujeito bem-sucedido e enebriado pela fama, mas também presentes em todos nós, pois são valores cultuados em nossa sociedade: basta ter em mente a noção de liberdade como um direito excludente em relação ao outro, seja Estado ou particular. Outro aspecto interessante é a figura da parede como algo que não separa apenas duas pessoas, separa um estatuto, uma força, uma maneira de ver (a expressão é de Jorge Pereira, resenha disponível em http://www.c7nema.net/).
Peço licença para um comentário pessoal. Muito embora não tenha relação com o filme, essa imagem me fez lembrar a casa de meus pais. Amigos, os vizinhos tornaram-se tão próximos que fizeram uma escada para pular de uma casa à outra, sem ter de sair até o portão da frente. A escada tornou-se signo de união e amizade, um antídoto à separação imposta pelo muro. Impressiona - provoca risos, comentários - amigos e familiares, a ponto de ter sido objeto de poema. Não o tenho em mãos, mas me lembro da emoção que sua leitura nos provocou. A relação que vejo entre a parede do filme e a escada é a forma como a divisão do espaço físico, privado ou público influencia a relação entre as pessoas, atua sobre seu próprio modo de ver as coisas, interfere e constrói a visão dos envolvidos (por que não dizer, influencia na personalidade do indivíduo?). No caso do filme, a parede separa uma maneira de ver, mas também define a relação entre os vizinhos. No caso de minha família, a escada influenciou a nossa relação com nossos vizinhos, transformando-a de forma única. No espaço público, os loteamentos fechados definem uma nova relação entre os condôminos e o espaço comum (praças, clubes etc.)....
O filme foi premiado no Festival de Sundance. Vale a pena conferir.
Abraços!
