Acabo de assistir a um filmaço: Dersu Uzala, de Akira Kurosawa, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1976. Retrata a história da amizade do Capitão Arseniev, militar russo, com Dersu Uzala, caçador mongol. Kurosawa retoma o velho tema da amizade entre homem civilizado, associado ao mundo da cultura (ou melhor, de uma cultura racional, ocidental e dominante), e o homem simples, mais próximo da natureza e de uma relação mística com o mundo. E como em tantas outras histórias que abordam esse tipo de relação (para citar algumas: O Solista, com Robert Downey Jr. e Jamie Fox; Nell, com Jodie Foster e Liam Nieson; o personagem Manuelzão, de Guimarães Rosa...), há uma sensibilização e um aprendizado por parte do homem civilizado, encantado com a simplicidade e a sabedoria do homem simples.
Poderia soar banal e repetitivo, não fosse o talento do diretor. Para mim, o bom diretor de cinema é um bom contador de histórias. Alguns alcançam esse patamar apenas com a força da narrativa "crua", na qual a imagem apenas substitui as letras e o texto de um livro. Outros, acrescentam grande carga estética ao recurso visual, caprichando na fotografia ou mesmo em efeitos visuais computadorizados. Uma boa trilha sonora também ajuda a ambos os tipos de contadores de histórias.
Conhecia de Kurosawa apenas dois de seus filmes, fortemente visuais: Ran, com suas impressionantes cenas de batalhas, e Sonhos, um espetáculo de cores e imagens oniricas. No início de Dersu Uzala, me pareceu que o filme seria bom apenas pela bonita e simples narrativa - e mesmo aí já aparece o gênio de Kurosawa, que trata um velho tema sem ser repetitivo ou piegas, com uma leveza e uma sensibilidade envolventes. Mas o filme também traz a marca do diretor (e de seu ótimo diretor de fotografia) com as belas imagens da Sibéria (gostei especialmente da sequência em que Dersu e Arseniev lutam para se proteger do frio, enquanto o sol se põe sobre um lago congelado) e, no final, com uma imagem deliberadamente carregada de simbolismo e efeitos de cores, luzes e sombras (o tigre passeando entre a escuridão e misteriosas luzes vermelhas, representando o medo de Dersu, velho e com dificuldade de enxegar, diante da floresta e seus espíritos).
